CrossFit faz mal? Entenda benefícios e riscos da modalidade

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Você provavelmente já ouviu falar sobre CrossFit ou leu sobre pessoas que são adeptas da modalidade nas redes sociais. No Brasil, segundo o Google Trends, as buscas pelo termo começaram a subir em 2013, atingiram seu ápice em agosto de 2018 e seguem relevantes até agora.

Mas, afinal, o que é o CrossFit? A modalidade de atividade física foi criada em 2000, pelo norte-americano Greg Glassman para ser uma filosofia de exercício físico que intercala e reúne elementos de diversas outras modalidades, como corrida, levantamento de peso, ginástica, remo e calistenia.

Buscas por CrossFit no Google tiveram pico em agosto de 2018 / Reprodução/Google Trends

A prática nasceu em Santa Cruz, na Califórnia, atrelada a uma marca, que funciona como uma grande rede global de franquias com associados em vários países e um sistema de certificação para os profissionais de educação física que quiseram se tornar instrutor da modalidade. A rede inclusive chegou a processar e conseguiu barrar o uso do seu nome sem autorização por outras academias.

Glassman tinha sequelas de paralisia infantil e desenvolveu o CrossFit a partir de uma insatisfação com a ginástica porque queria uma modalidade holística, que trabalhasse o corpo inteiro e fosse adaptável para qualquer corpo.

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Para responder às principais dúvidas sobre o CrossFit, a CNN ouviu Dr. Julio Cesar Nardelli, ortopedista e médico do esporte do Hospital Sírio Libanês, e Fábio Dominski, doutor em ciências do movimento humano pela Universidade Estadual de Santa Catarina (Udesc). Veja abaixo: 

O que é o CrossFit?

Dominski e outros pesquisadores que se debruçaram sobre o assunto propuseram a adoção do termo funcional fitness para denominar a modalidade esportiva do CrossFit, que é uma marca. A proposta é reunir diferentes elementos de outras modalidades juntos em um treino de alta intensidade.

“É uma modalidade que envolve o trabalho de diversos componentes de aptidão física porque mistura muitas modalidades: tem corrida, treinamento de força, levantamento olímpico, calistenia, remo. Tem uma variedade de atividades dentro da proposta”, explica Dominski. 

Essa junção de elementos, segundo Nardelli, que também é médico da Seleção Brasileira Feminina de Vôlei, tem como melhorar a capacidade cardiorrespiratória e pulmonar, além de aumentar a resistência e massa muscular.

Quem pode praticar CrossFit? Há alguma restrição?

Uma das principais características do CrossFit é a sua adaptabilidade a diferentes corpos e pessoas. Segundo Dominski, isso se dá em função da escalabilidade que está no cerne da modalidade. Ou seja, a proposta é justamente trabalhar com progressão de carga e intensidade de treinos de acordo com o corpo do indivíduo que pratica.

“Essa característica permite que a gente coloque exercícios em diferentes níveis de execução. Mesmo um praticamente que é inativo fisicamente, ou que fica muito tempo sentado durante o dia, ele pode ir até um box de CrossFit, para um local que ofereça essa modalidade, e ainda fazer vários dos exercícios de maneira adaptada com dificuldade inferior e relativa à sua capacidade”, explica o pesquisador. 

Ele defende que a modalidade pode acolher pessoas com diferentes corpos e com restrições como doenças e limitações físicas num mesmo treino, todos juntos.

“Ao longo do tempo foram feitos alguns estudos que mostram que não há alguma limitação para que se pratique o CrossFit, em relação à idade, ao sexo. Você tem que criar um modelo que tenha segurança, eficiência e eficácia e dentro disso o crossfit se enquadra, por isso ele ganhou essa popularidade”, defende Nardelli.

Para o médico, é importante que o praticante procure instrutores certificados capazes de acompanhar seu desenvolvimento no CrossFit e adaptar as atividades aos limites e necessidades.

“Todo mundo pode fazer, mas tem que ser um treinamento individualizado de acordo com as suas limitações, tem que ser um treinamento individualizado de acordo com as lesões prévias que você tem”, explica. 

Quais são as lesões mais comuns causadas pela prática de CrossFit?

Segundo Dominski, as regiões mais lesionadas durante a prática de CrossFit são os ombos, a coluna lombar e os joelhos.

No caso dos ombros, as lesões costumam ser causadas pelas repetições de exercícios de levantamento de barra acima da cabeça; no caso da lombar, o maior vilão é o agachamento, conforme explica Nardelli.

O médico recomenda que os praticantes façam, além de uma avaliação inicial, checagens semestrais com um cardiologista, um ortopedista e um nutricionista para monitorar o risco de lesões e garantir da prática.

“A identificação desses fatores de risco é muito importante. Conhecer as principais lesões e fazer essa reavaliação a cada 6 meses para que não haja uma sobrecarga e você não se machuque.”

Ele alerta ainda para o risco de rabdomiólise, a “doença da urina preta”, que é a ruptura das fibras musculares devido à fadiga intensa que pode provocar um quadro de insuficiência renal. Por ser uma atividade física muito intensa, Nardelli recomenda que os praticantes de CrossFit incluam o descanso em suas rotinas para que o corpo consiga descansar entre as sessões.

Como funciona uma aula de CrossFit?

A aula de CrossFit é dividida em três etapas: warm up, skill e WOD.

Warm up: Conforme explica Dominski, primeiro o praticante faz um aquecimento do corpo considerando o que vai ser trabalhado naquela sessão.
Skill: Depois, ele treina as habilidades específicas e desenvolve aspectos como força e potência a depender da programação do dia.
WOD: Quem fecha o treino é Workout of the day, isto é, treino o dia. É uma parte de condicionamento metabólico de alta intensidade em que o participante completa os exercícios do dia.

O que gera motivação no CrossFit?

Segundo Dominski, há estudos que apontam que os praticantes de CrossFit apresentam motivação de boa qualidade por conta do ambiente social e estrutural da modalidade. Ele cita os rituais próprios da modalidade como elementos importantes para a construção de um senso de comunidade nos boxes, locais onde a modalidade é praticada. Dentre eles destacam-se o grito de guerra, o universo próprio de palavras e a foto no final do treino.

“É um ambiente mais livre de prática de exercício comparado a uma academia tradicional, que é mais fechada em relação à parte social mesmo. Lá no crossfit as pessoas também se sentem desafiadas de maneira constante. Há novos exercícios em praticamente todo treino ou maneiras mais difíceis de fazê-lo. A própria escalabilidade desafia o praticante a subir de nível, fazer do nível mais fácil para o mais difícil”, explica o pesquisador.

Esse senso de comunidade é promovido de forma intencional pela modalidade, conforme defende Dominski. O fato de a modalidade reunir pessoas com corpos diferentes num mesmo grupo cria uma experiência vicária, isto é, quando um praticante vê alguém fazendo alguma função e, por isso, passa a acreditar que consegue fazer também.

“Muitas vezes você bate um recorde pessoal e as pessoas ficando feliz com isso. Isso aumenta a percepção de competência, que é uma necessidade psicológica básica”, disse. 

A pesquisa de Dominski também descobriu que o CrossFit provoca um aumento do fator neurotrófico derivado do cérebro (BNDF), elemento responsável pela regeneração e formação de novos neurônios e plasticidade das sinapses feitas no cérebro.

Ele explica que, por ser uma modalidade de alta intensidade, o CrossFit provoca um aumento da concentração de lactato sanguíneo (substância responsável por avisar que o corpo está em estresse físico e prepará-lo para uma atividade intensa), que, através da barreira hematoencefálica (que é um mensageiro para o cérebro), intensifica o BNDF.

Este conteúdo foi originalmente publicado em CrossFit faz mal? Entenda benefícios e riscos da modalidade no site CNN Brasil.

 

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